Open insurance em Portugal é um tema que ainda não entrou nas conversas do dia-a-dia da maioria dos mediadores. Mas devia. O que está a acontecer na regulação europeia vai mudar de forma estrutural a forma como os dados de seguros circulam — e isso tem implicações directas para qualquer pessoa que trabalhe em mediação.
A boa notícia: as oportunidades para os mediadores que se preparem são reais e significativas. A má notícia: há também riscos concretos para quem opera em produtos simples sem se reposicionar. Este artigo trata ambos com honestidade.
Antes de entrar no impacto prático, vale a pena perceber exactamente o que é o open insurance — porque o conceito ainda gera muita confusão, misturado com termos como insurtech, digitalização e open banking.
O Que é o Open Insurance e Como Funciona?
Para perceber o open insurance, a melhor analogia é o open banking — um processo que Portugal e a Europa já atravessaram.
Antes do open banking, os dados das suas conta bancárias estavam fechados dentro de cada banco. Só o banco os via, só o banco os usava. A regulação europeia — nomeadamente a directiva PSD2 — obrigou os bancos a abrirem APIs padronizadas que permitem a terceiros autorizados (com o consentimento do cliente) aceder a esses dados. Isso criou um ecossistema inteiro de aplicações de gestão financeira, comparadores, plataformas de crédito e serviços personalizados que antes eram impossíveis.
O open insurance segue exactamente a mesma lógica, aplicada ao sector de seguros.
Hoje, os dados das apólices de um cliente estão dispersos por múltiplas seguradoras, cada uma com os seus sistemas fechados. O mediador tem acesso limitado aos dados que ele próprio gerou — e praticamente nenhum acesso ao histórico completo do cliente noutras seguradoras. As seguradoras usam esses dados para precificar e reter clientes, mas o mediador depende do que o cliente lhe consegue comunicar.
Com o open insurance, isso muda. APIs padronizadas criam um ecossistema onde:
- Os dados das apólices pertencem ao cliente, não à seguradora
- O cliente pode autorizar qualquer mediador ou plataforma a aceder ao seu histórico completo
- As seguradoras são obrigadas a partilhar dados em formato standardizado quando autorizadas
- Novos produtos e serviços podem ser construídos sobre esses dados
A regulação que está a criar as bases para o open insurance em Portugal inclui o regulamento DORA (Digital Operational Resilience Act), que impõe requisitos de resiliência digital ao sector financeiro e de seguros, e a revisão da Directiva de Distribuição de Seguros (IDD), que está a incorporar princípios de partilha de dados e portabilidade. A Comissão Europeia publicou em 2023 a sua estratégia de dados para o sector financeiro que inclui explicitamente o open insurance como objectivo a médio prazo.
Quando Chega o Open Insurance a Portugal?
A resposta honesta é: progressivamente, e mais depressa do que a maioria dos mediadores pensa.
O estado actual da regulação europeia aponta para uma implementação faseada. A regulação-quadro que define as obrigações das seguradoras em matéria de partilha de dados deve estar concluída ao nível europeu entre 2026 e 2027. A transposição para a legislação nacional e a implementação efectiva pelos operadores provavelmente adiciona mais 12 a 18 meses. O timeline mais realista para o open insurance funcional em Portugal situa-se entre 2027 e 2028.
Mas isso não significa que não há nada a acontecer agora. Dois mercados pioneiros mostram o caminho:
Reino Unido: O Open Insurance Working Group do Reino Unido está activo desde 2021. Algumas seguradoras já disponibilizam APIs para acesso por terceiros autorizados. Os mediadores que adoptaram ferramentas de agregação de dados têm hoje uma vantagem competitiva mensurável em onboarding de novos clientes.
Países Baixos: O mercado holandês tem algumas das maiores seguradoras europeias a testar modelos de partilha de dados com mediadores parceiros. O feedback é inequívoco: os mediadores com acesso a dados agregados dos clientes fazem mais cross-selling e têm taxas de retenção superiores.
Em Portugal, algumas seguradoras de maior dimensão já estão a desenvolver APIs internas como preparação para a regulação. Os mediadores que estiverem ligados a redes com capacidade técnica para integrar estas APIs quando estiverem disponíveis terão uma vantagem de tempo significativa.
O Que o Open Insurance Muda Para os Mediadores — As Oportunidades
Vamos ao que interessa: o que é que o open insurance significa concretamente para o seu negócio?
Portabilidade real de carteiras
Hoje, quando um cliente muda de seguradora — ou quando você mudan de rede —, o histórico de apólices não é transferível de forma sistemática. Com o open insurance, os dados seguem o cliente. Isso facilita a migração de carteiras e reduz o poder das seguradoras de "prender" clientes através da inércia informacional.
Para um mediador que quer crescer a sua carteira por incorporação de clientes existentes noutras seguradoras, isso é uma mudança fundamental. O onboarding de um novo cliente passa a incluir um pedido de acesso ao histórico completo — e o mediador tem, de imediato, uma visão completa das coberturas actuais, das renovações próximas e dos gaps de cobertura.
Acesso a dados agregados de clientes — melhor consultoria
Com o consentimento do cliente, pode aceder ao seu historial de seguros completo numa única consulta. Sabe exactamente o que tem, o que pagou, qual a sinistralidade histórica. Em vez de depender do que o cliente se lembra de lhe dizer — que muitas vezes é incompleto ou impreciso — tem dados concretos para construir uma proposta de cobertura integrada.
Esta capacidade transforma o processo de consultoria. Em vez de fazer perguntas genéricas sobre as necessidades do cliente, pode entrar numa conversa com um diagnóstico já feito e uma proposta específica.
Novos produtos baseados em dados comportamentais
O open insurance vai criar condições para produtos que hoje são de nicho ou inexistentes no mercado português:
- Seguros de automóvel baseados em comportamento de condução (telemáticos), com prémios ajustados em tempo real
- Seguros de saúde integrados com dados de dispositivos de monitorização
- Seguros de habitação conectados a sensores domésticos (inundação, incêndio, intrusão)
- Produtos de vida e poupança personalizados com base no perfil financeiro completo do cliente
Cada um destes produtos representa uma nova conversa com clientes existentes e uma nova forma de diferenciar o seu serviço face a canais directos.
Quer saber como a BEE.DO pode ajudar a crescer a sua carteira? Fale com a nossa equipa →
Os Riscos do Open Insurance Para os Mediadores
Seria desonesto não abordar os riscos. O open insurance tem implicações que podem afectar negativamente mediadores que não se adaptem.
Desintermediação em produtos simples
O maior risco é claro: se o cliente consegue autorizar uma plataforma digital a aceder ao seu histórico completo e receber propostas comparativas de múltiplas seguradoras em segundos, a necessidade de um mediador para produtos standard diminui.
Um cliente de 35 anos, sem sinistros, a renovar um seguro de automóvel de gama média, num comparador alimentado por dados open insurance, vá ter acesso a propostas mais rápidas e mais baratas do que o processo actual com um mediador que não acrescenta valor consultivo. Isso é a realidade que se aproxima.
Pressão sobre comissões em produtos commoditizados
A maior transparência de dados vai aumentar a pressão concorrencial em produtos simples. As seguradoras, para competirem nos canais digitais, vão reduzir margens em produtos de baixa complexidade. Isso traduz-se em pressão sobre as comissões dos mediadores que dependem desses ramos.
Concentração de poder nas plataformas
O open insurance pode criar um novo tipo de intermediário: as plataformas de agregação, que acedem aos dados dos clientes e distribuem propostas de múltiplas seguradoras. Se estes agregadores se tornarem dominantes, o mediador individual perde poder negocial tanto com seguradoras como com clientes.
A resposta a todos estes riscos é a mesma: especialização e valor consultivo. O mediador que compite em preço em produtos simples está numa posição frágil, com ou sem open insurance. O mediador que é percepcionado como um consultor de risco indispensável — em clientes empresariais, em produtos complexos, em situações de risco não standard — tem uma posição que nenhuma plataforma de agregação consegue substituir.
Como Se Preparar Para o Open Insurance?
A preparação não é sobre esperar que a regulação chegue. É sobre construir já a posição que lhe vai dar vantagem quando chegar.
1. Especializar em produtos de maior complexidade
Migra progressivamente a sua carteira para ramos onde a análise de risco e a consultoria personalizada são insubstituíveis. Empresas, responsabilidade civil profissional, saúde colectiva, produtos de vida com componente de poupança. Estes são os produtos que os agregadores digitais não conseguem distribuir eficazmente.
2. Construir relações fortes baseadas em confiança
Os dados podem ser partilhados, mas a relação de confiança com o cliente não é transferível. O mediador que é o consultor de confiança dos seus clientes — que os liga quando o contexto muda, que faz revisões anuais, que explica as coberturas com clareza — está protegido contra a desintermediação independentemente do modelo regulatório.
3. Adoptar ferramentas de dados já disponíveis
Não espere pelo open insurance regulado para começar a trabalhar com dados. As ferramentas de gestão de carteira actuais já permitem análises sofisticadas sobre renovações, sinistralidade e oportunidades de cross-selling. Dominar estas ferramentas agora prepare-se para o ecossistema mais rico que o open insurance vai criar.
4. Escolher uma rede preparada tecnologicamente
Quando o open insurance estiver disponível, a capacidade de integrar APIs de dados vai ser um factor diferenciador entre redes de mediação. Estar numa rede com capacidade técnica para tirar partido dessas APIs — e que as vai disponibilizar aos seus mediadores — vale muito mais do que uma rede que ficará atrás na adopção.
Para uma perspectiva mais ampla sobre as tendências que vão moldar a mediação até 2030, incluindo o papel do open insurance no contexto mais alargado, o artigo sobre o futuro da mediação de seguros em Portugal dá o enquadramento estratégico que complementa esta análise.
Perguntas Frequentes
O que é o open insurance em termos simples?
Open insurance é um sistema regulado que obriga as seguradoras a partilhar dados dos clientes (com o seu consentimento) através de APIs padronizadas, permitindo que mediadores, plataformas e outros serviços autorizados acedam a esses dados. É o mesmo conceito do open banking, mas aplicado ao sector de seguros. O objectivo é criar um mercado mais transparente, portável e competitivo, onde os dados das apólices pertencem ao cliente, não às seguradoras.
O open insurance é uma ameaça ou uma oportunidade para os mediadores?
As duas coisas, dependendo do posicionamento. Para mediadores que dependem de produtos simples e que não acrescentam valor consultivo, é uma ameaça real — a desintermediação em produtos commoditizados vai acelerar. Para mediadores especializados em produtos complexos, com relações fortes com os seus clientes, é sobretudo uma oportunidade: acesso a dados melhores, portabilidade de carteiras e novos produtos baseados em dados comportamentais.
Quando é que o open insurance vai estar operacional em Portugal?
O timeline mais realista para uma implementação plena aponta para 2027–2028, dependendo do ritmo da regulação europeia (nomeadamente a revisão da IDD) e da transposição nacional. Alguns mercados pioneiros como o Reino Unido já têm iniciativas activas desde 2021. Em Portugal, as seguradoras de maior dimensão já estão a desenvolver APIs internas como preparação para a regulação.
Os mediadores vão perder clientes por causa do open insurance?
Os mediadores que não acrescentam valor consultivo vão, provavelmente, perder clientes em produtos simples para plataformas de agregação. Os mediadores que são percepcionados como consultores de risco indispensáveis pelos seus clientes têm uma posição muito mais segura. O open insurance não substitui a relação de confiança — reforça a importância de a construir antes que a regulação entre em vigor.
Conclusão
O open insurance em Portugal não é ficção científica — é um processo regulatório em curso que vai chegar ao mercado português nos próximos dois a três anos. Para mediadores, significa oportunidades concretas em portabilidade de carteiras, acesso a dados e novos produtos. Mas também significa que os mediadores que não se reposicionarem em direcção ao valor consultivo vão sentir pressão crescente em produtos simples.
A preparação começa agora: com especialização, com ferramentas de dados, com relações de confiança com clientes e com a escolha de uma rede que esteja a preparar-se para este ecossistema. Os mediadores que chegarem ao open insurance já posicionados como consultores de risco vão surfar a onda. Os que chegarem como distribuidores de apólices simples vão sentir a maré a baixar.
Pronto para dar o próximo passo? Junte-se à BEE.DO e fique com 100% das suas comissões. Candidatar-me →



